Já fazia tempo que queria ler Olhos d’água, da Conceição Evaristo. Havia lido Becos da Memória há uns anos e gostado muito, então sabia que seria um livro impactante.
No livro, Conceição apresenta um compilado de contos que falam sobre a população negra brasileira, passado por questões de violência e pobreza, de forma crua, sem rodeios. E o impacto se dá justamente por isso, a realidade das palavras da autora nos revoltam e fazem sofrer. Mas tem seus momentos de pureza e de mostrar o belo em situações cruéis. Essa dicotomia, na minha opinião, é o que deixa o trabalho da autora tão real, pois a vida é assim, os momentos leves podem ser atravessados por algo inesperado, sem que a gente preveja.
O primeiro conto, que dá título ao livro, foi o que mais me impactou, relata uma filha tentando puxar pela memória a cor dos olhos da mãe. E é algo que acontece com as mães, por entrarem nesse papel, tem sua identidade e características postas de lado, e às vezes um detalhe tão simples, tão básico, pode passar batido. E, quando a filha chega à conclusão de qual era a cor dos olhos da mãe, a resposta é linda (e também um tantinho triste) e cheia de poesia.
Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos foi outro conto que mexeu comigo, esse pela sua tristeza. Aqui, tem relação entre irmãs, crianças, com as costumeiras brigas e desentendimentos comuns da infância, mas tem também a realidade das favelas, com suas guerras. Daquelas histórias que acabam com a gente.
Não quero me estender muito pra não correr o risco de dar spoilers, mas esses dois contos representam bem, para mim, o que é esse livro, esse misto de beleza e crueldade, extremamente realista. Um retrato brasileiro.
Mais uma vez, concluí um livro de Conceição Evaristo impactada, não tem outra palavra pra descrever melhor.
