A Vergonha

Já comentei aqui algumas vezes que a escrita de Annie Ernaux me causa encantamento. Desde que li algo da autora pela primeira vez, em 2024, tenho buscado ler cada vez mais. 

E o que me causa esse encantamento é a crueza que ela coloca nas páginas. Sem grandes floreios, ela fala sobre acontecimentos que tiveram parte em sua vida. Sem tentar tirar grandes análises deles, mas apontá-los.

E ela faz isso novamente em A Vergonha. Desde a sinopse já me prendeu, pois começa com a primeira linha do livro “Meu pai tentou matar minha mãe num domingo de junho, no começo da tarde.”. Ela começa assim o livro, o que me deixou extremamente curiosa, do porquê, do como e mais ainda, como isso afetou todo o resto da vida em família, pois já tinha lido outros livros da autora e sabia que os pais dela permaneceram casados por muitos anos, se não me engano, até a morte dele.

Mas Annie não vem com respostas, pelo menos não com as que eu queria. Ela parte desse acontecimento, meio sem saber que rumo vai tomar a escrita e acaba trazendo ao leitor um livro que fala sobre momentos de sua infância e adolescência em que foi tomada de absoluta vergonha. Esse momento que abre o livro foi um deles. Pois ela se pegou pensando em como sua vida seria se o pai tivesse de fato matado a mãe, ou pior (?) se algum vizinho tivesse ficado sabendo dessa tentativa. E assim ela vai passando por coisas mais sérias, até outras que pareciam fúteis, como quando em uma viagem com o pai, foi tomada de vergonha de interagir com outras meninas da idade, por notar que não estava vestida no mesmo padrão ou tinha o hábito de frequentar os mesmos locais. E como isso faz com que se perca experiências.

E isso foi me fazendo pensar em situações em que deixei a vergonha falar mais alto e deixei de fazer algo que eu queria muito. De deixar de puxar assunto com uma colega de aula, a (recentemente) negar participar de algo.

E acho que é esse discorrer pelo cotidiano o que mais encanta na escrita da Annie, ela faz com tanta naturalidade que sempre fico querendo “ouvir” mais do que ela tem a dizer.

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Sobre mim

Danielle

Apaixonada por livros e viciada em chimarrão.

Falo de livros no instagram desde 2017 e chegou a hora de ter um cantinho próprio.

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